Programa de indicação no turismo: quanto pagar, como atribuir e repassar

Uma pousada mandou oito hóspedes para o passeio de lancha em janeiro. Em fevereiro, mandou três. Em março, parou. Ninguém brigou. A dona só deixou de indicar.

O motivo apareceu numa conversa no cais. Pelas contas dela, foram onze clientes no verão. Ela recebeu por sete, num Pix sem descrição, três semanas depois. É assim que a maioria dos programas de indicação no turismo morre: não por falta de quem indique, mas por falta de regra para atribuir, pagar e mostrar o resultado.

Pousada, guia, marinheiro e agência local querem indicar. Basta que a bonificação chegue certa, na data combinada, e que eles consigam conferir. O percentual é a parte fácil.

Este guia cobre o desenho do programa: quem recrutar, quanto pagar, como atribuir a venda, quando repassar e como pagar quem não tem CNPJ.

Por que programas de indicação morrem na administração

Os modos de falha se repetem:

  • Atribuição duvidosa. O cliente chega pelo WhatsApp sem dizer quem indicou, e a pousada jura que foi ela.
  • Pagamento atrasado. O Pix de sexta-feira fica para a semana seguinte, depois para o fim do mês. O parceiro conclui que indicar você dá trabalho para receber.
  • Parceiro sem visibilidade. Quem indica não sabe quantas vendas gerou nem quanto tem a receber. Toda dúvida vira mensagem para você, e toda divergência vira desconfiança.
  • Indicação e revenda misturadas. A agência ganha percentual e ainda vende acima do seu preço, ou a pousada recebe tarifa de revenda sem vender nada.
  • Cancelamento sem regra. O cliente cancelou depois que a comissão foi paga. Pedir o dinheiro de volta ao parceiro custa a relação.
  • Pagamento sem documento. O marinheiro não tem CNPJ, o Pix sai sem comprovação, e o contador descobre no fim do ano.

Nenhuma dessas falhas é falta de parceiro. Todas são falta de regra escrita antes da primeira venda.

Como montar um programa de indicação no turismo, passo a passo

Para montar um programa de indicação, defina por escrito quem pode indicar, quanto cada tipo de parceiro recebe, como a venda é atribuída, quando a comissão é paga, o que acontece no cancelamento e como o pagamento é documentado. Depois dê a cada parceiro um link próprio e acesso ao próprio extrato.

  1. Liste quem já indica você. Recrute primeiro as pousadas, guias, marinheiros e agências que já mandam cliente de graça.
  2. Separe quem indica de quem revende. As regras são outras.
  3. Defina a comissão por tipo de parceiro. Primeiro a margem, depois o número.
  4. Escolha a regra de atribuição. Link, código ou registro na reserva, com uma janela de tempo definida e um critério para quando dois parceiros reivindicam o mesmo cliente.
  5. Fixe quando o repasse acontece. No pagamento, depois do passeio ou em lote periódico, com data e valor mínimo.
  6. Escreva a regra de cancelamento. O que acontece com a comissão se o cliente cancelar antes ou depois do repasse.
  7. Resolva com o contador como cada parceiro vai ser pago. Antes do primeiro pagamento, não depois do décimo.

Qual a diferença entre quem indica e quem revende?

Quem indica manda o cliente para você e recebe um percentual da venda; você vende, cobra e atende. Quem revende compra o passeio por uma tarifa NET e vende pelo preço que quiser; ele cobra o cliente e responde por ele. Indicação paga comissão. Revenda ganha margem.

Tarifa NET é o preço líquido que o operador cobra de um revendedor, sobre o qual o revendedor acrescenta a própria margem para vender ao cliente final.

Exemplo ilustrativo, com passeio de lancha a R$ 400 por pessoa:

  • Pousada que indica, com 10%: o hóspede paga R$ 400 a você, e a pousada recebe R$ 40.
  • Agência que revende, com NET de R$ 320: a agência paga R$ 320 a você e vende ao cliente por R$ 400, R$ 420 ou o preço que ela definir. A diferença é dela.

Por que misturar os dois sai caro

A agência que recebe 10% de comissão e ainda cobra do cliente acima do seu preço ganha duas vezes na mesma venda. A pousada que recebe tarifa NET sem estrutura para cobrar e atender deixa o cliente sem saber a quem reclamar.

O critério de escolha é quem cobra o cliente. Se o dinheiro passa pela sua conta, o parceiro indica. Se passa pela conta dele, ele revende.

Com quem revende, vale pedir o número do Cadastur antes de fechar. O passo a passo de como o registro funciona está em Cadastur passo a passo: como se cadastrar e renovar.

Quanto pagar de comissão para quem indica cliente?

No turismo, a comissão por indicação costuma ficar entre 10% e 20% do valor da venda. O número certo para a sua operação é o que cabe na margem do passeio depois de custo direto, taxa de pagamento e imposto. Calcule a margem primeiro e ofereça o percentual depois, nunca o contrário.

Um passeio vendido a R$ 400, com custo direto de R$ 260, deixa R$ 140 de margem antes da comissão. Os números são ilustrativos:

  • Comissão de 10%: R$ 40, ou 29% da margem.
  • Comissão de 15%: R$ 60, ou 43% da margem.
  • Comissão de 20%: R$ 80, ou 57% da margem.

A 20%, mais da metade do que sobra vai para quem indicou: pode valer num dia que sairia vazio, não como regra para o ano todo. A conta completa, com custo fixo da saída e ponto de equilíbrio, está em como precificar passeios e city tour sem perder margem.

Percentual diferente para cada tipo de parceiro

  • Pousada: indica com frequência. Comporta faixa por volume, como 10% até cinco vendas no mês e 12% a partir da sexta.
  • Guia autônomo: percentual fixo e pagamento rápido.
  • Marinheiro e recepcionista: indicam por conversa, um cliente por vez. Valor fixo por pessoa, como R$ 20, costuma ser mais fácil de entender que percentual.
  • Agência local: se só indica, percentual. Se cobra o cliente, tarifa NET.

Percentual ou valor fixo

Percentual acompanha o preço do passeio. Valor fixo é mais fácil de explicar. Catálogo com preços muito diferentes pede percentual; passeio único funciona com valor fixo.

Defina também se a comissão incide sobre o valor bruto ou o líquido da taxa de pagamento. A diferença parece pequena por venda e vira discussão no acumulado, como mostra como funciona o split de pagamento no turismo.

Como saber de qual parceiro veio a venda?

A venda é atribuída ao parceiro pela regra combinada antes: link próprio, código ou registro na reserva, dentro de uma janela de tempo definida. Escreva também o critério de desempate para quando dois parceiros reivindicam o mesmo cliente. Sem regra escrita, cada venda indicada vira uma negociação, e quem perde a discussão deixa de indicar.

Janela de atribuição é o período, contado a partir do clique no link ou do primeiro contato, em que uma venda continua sendo creditada ao parceiro que trouxe o cliente.

Três formas de atribuir, da mais à menos confiável

  1. Link próprio do parceiro. O cliente clica, a origem fica registrada. Funciona para quem compra pelo site.
  2. Código ou cupom do parceiro. O cliente informa no checkout ou na conversa. Funciona para quem compra pelo WhatsApp, desde que o código seja pedido.
  3. Pergunta na reserva. O atendente pergunta "quem indicou?" e registra. É a mais frágil, porque depende de alguém lembrar de perguntar e de o cliente lembrar o nome.

Janela curta ou longa

Uma janela longa, como 30 dias, protege o parceiro quando o cliente vê o passeio na recepção e compra dias depois. Uma janela curta, como 7 dias, evita pagar por venda que o parceiro mal influenciou. Depende de quanto o seu cliente leva para decidir: o turista na cidade decide em horas; quem planeja a viagem, em semanas.

Quando dois parceiros reivindicam o mesmo cliente

Escolha uma regra e publique: vale o último link clicado, ou vale o primeiro. O último premia quem fechou a venda. O primeiro premia quem apresentou o passeio. As duas são defensáveis. Indefensável é decidir caso a caso.

Quando pagar a comissão e o que fazer no cancelamento?

A comissão pode ser paga no instante do pagamento do cliente, depois da realização do passeio ou em lote semanal, quinzenal ou mensal. Pagar cedo agrada o parceiro, mas obriga a cobrar de volta quando o cliente cancela. Pagar depois do passeio evita o estorno, mas faz o parceiro esperar.

As três políticas e quando cada uma serve

  • No pagamento do cliente. É o argumento mais forte para recrutar. Serve quando o seu índice de cancelamento é baixo. Como o dinheiro chega ao parceiro nesse modelo é o assunto do split de pagamento no turismo.
  • Depois do passeio. A comissão só vale para passeio realizado. Serve quando cancelamento e remarcação por tempo são frequentes, como em operação náutica.
  • Em lote, com valor mínimo. Por exemplo, todo dia 5, para saldos acima de R$ 50. Reduz o número de transferências. Serve quando há muitos parceiros com poucas vendas cada.

Regra de cancelamento

Escreva antes: se o cliente cancelar e for reembolsado, a comissão é estornada. Se o passeio for remarcado, a comissão acompanha a nova data. Se for cancelado por tempo ou por decisão do operador, o parceiro não perde nada que ainda não recebeu, e o que já recebeu é compensado no próximo repasse, não cobrado por Pix.

Todo estorno precisa de motivo registrado. "Cliente cancelou em 12/03, reembolso integral" encerra a conversa.

O parceiro precisa ver o próprio resultado

Quem indica deve conferir sozinho quantos clientes mandou, quantos compraram, quanto ganhou, quanto recebeu e o que foi estornado. Um extrato acessível pelo celular corta a maior parte das mensagens de cobrança.

Como pagar comissão de indicação para pessoa física?

Pagar comissão a pessoa física, como marinheiro ou guia autônomo, exige que cada pagamento tenha documento que comprove o serviço e que você saiba quais retenções se aplicam. O caminho correto depende do seu regime tributário e da situação do parceiro, e quem define é o seu contador, antes do primeiro pagamento.

Esta é a parte que mais trava um programa de indicação, e quase ninguém fala dela. O problema concreto:

  • Pix sem documento. Para a sua contabilidade, é uma despesa sem comprovação.
  • Parceiro sem CNPJ. O marinheiro indica bem, mas não emite nota. Pagar a pessoa física pode envolver recibo próprio e retenções, que variam conforme o caso.
  • Parceiro que pode virar MEI. Nem toda atividade é permitida no MEI. Para guia, a discussão está em guia de turismo pode ser MEI e quais são as alternativas.
  • Parceiro com CNPJ. Pousada e agência emitem nota da comissão. É o caminho mais simples, e por isso vale começar o programa por eles.

Recepcionista e marinheiro empregados de outra empresa

Quem de fato indica, muitas vezes, é a recepcionista da pousada ou o marinheiro de outro barco. Pagar direto a essa pessoa motiva quem indica, mas pode desagradar o dono. Pagar à pousada, com nota, é mais simples, mas a recepcionista não vê nada. Converse com o dono antes. Se a ideia for pagar direto ao funcionário de outra empresa, ou bonificar o seu próprio funcionário por indicação, leve a dúvida ao contador e, se for o caso, a um advogado trabalhista.

Leve ao contador três perguntas: como documentar o pagamento a quem não tem CNPJ, quais retenções se aplicam no seu caso e como lançar a comissão estornada.

Resumo

  • Comece recrutando quem já indica você de graça: pousadas, guias, marinheiros e agências locais.
  • Separe quem indica, que recebe percentual, de quem revende, que compra por tarifa NET e cobra o cliente.
  • Calcule a margem do passeio antes de oferecer comissão; a faixa usual no turismo vai de 10% a 20%.
  • Use percentual em catálogo com preços variados e valor fixo em passeio único ou para quem indica um cliente por vez.
  • Dê a cada parceiro um link ou código próprio e defina a janela de atribuição e o critério de desempate por escrito.
  • Fixe a data do repasse e o valor mínimo, e cumpra; atraso mata o programa mais rápido que percentual baixo.
  • Escreva a regra de estorno antes da primeira venda e registre o motivo de cada estorno.
  • Dê ao parceiro acesso ao próprio extrato, para ele conferir sem precisar perguntar.
  • Defina com o contador como pagar pessoa física antes do primeiro repasse.

Perguntas frequentes

Quanto pagar de comissão para quem indica passeio?

No turismo, a comissão por indicação costuma ficar entre 10% e 20% do valor da venda. O percentual certo é o que cabe na margem do passeio depois de custo direto, taxa e imposto. Num passeio de R$ 400 com R$ 140 de margem, 15% de comissão consome 43% dessa margem.

Qual a diferença entre comissão e tarifa NET?

Comissão é o percentual pago a quem indica um cliente que compra direto do operador. Tarifa NET é o preço líquido que o operador cobra de um revendedor, que vende ao cliente pelo preço que quiser e fica com a diferença. Na comissão, o operador cobra o cliente; na tarifa NET, quem cobra é o revendedor.

Posso pagar comissão por Pix para pessoa física?

O Pix é só o meio de pagamento. O que importa é que cada pagamento tenha documento que comprove o serviço e que as retenções aplicáveis sejam feitas. Como documentar e quais retenções se aplicam depende do seu regime tributário; confirme com o contador antes do primeiro pagamento.

O que acontece com a comissão se o cliente cancelar?

Depende da regra combinada antes da venda. Uma regra simples é estornar a comissão quando o cliente é reembolsado e mantê-la quando o passeio é remarcado. Se a comissão já foi paga, compensar no repasse seguinte preserva a relação melhor do que cobrar o parceiro de volta.

Como saber se a venda veio mesmo do parceiro?

Dê a cada parceiro um link ou código próprio e registre a origem na reserva. Defina por escrito uma janela de atribuição, como 7 ou 30 dias, e o critério de desempate quando dois parceiros reivindicam o mesmo cliente. Perguntar "quem indicou?" funciona, mas é a forma mais frágil de atribuir.

Recepcionista de pousada pode receber comissão direto?

Pode ser combinado, mas converse antes com o dono da pousada, que pode não aceitar. A alternativa é pagar à pousada, com nota. Como documentar o pagamento a uma pessoa física é questão para o contador; se envolver vínculo de emprego, para um advogado trabalhista.

Preciso de um sistema para montar um programa de indicação?

Não para começar. Com até cinco parceiros, uma planilha, um código por parceiro e um repasse mensal com data fixa resolvem. O sistema passa a valer quando os parceiros se multiplicam e a conferência de quem indicou, quanto ganhou e o que foi estornado começa a tomar horas por mês e a gerar divergência.

Como a AssincTour organiza um programa de indicação

Na AssincTour, o parceiro é cadastrado como quem indica, com comissão, ou como quem revende, com tarifa NET. Cada parceiro recebe um link rastreável no formato /r/nome, e a atribuição vale 30 dias. A comissão pode variar por parceiro, por produto, por categoria e por faixa de volume. O extrato mostra comissão ganha, paga e estornada, e cada estorno registra motivo e autor. O repasse pode ser feito em lote, com valor mínimo e periodicidade semanal, quinzenal ou mensal. Com o gateway Asaas, a comissão é creditada ao parceiro no instante do pagamento; com outro gateway, ela é calculada e controlada da mesma forma, mas o pagamento vira repasse em lote. O parceiro acompanha cliques, vendas e extrato pelo celular, sem senha. A parte fiscal continua sendo sua e do seu contador.